Crônicas

SOLIDÃO

Do nada, ela resolveu se isolar do mundo. Sumir do mapa. Escafeder-se. Largar tudo de vez. Pensou numa viagem solitária de barco pelos oceanos. Mas Yolanda nem sabia nadar. Aposentada pelo INSS, seu último emprego foi como caixa do Banco do Brasil. Lidou com o público e com a absoluta contrariedade de fazer isso. Tinha dias que parecia explodir. Controlou-se à base de comprimidos e orações.

Não tinha mais ninguém, nem amigos nem família. Sua única filha, formada em Economia, tinha casado e se mudado para Boston, onde o marido trabalhava. Yolanda, ainda uma mulher atraente, havia se separado e não considerava, por ora, novos relacionamentos. Fechada para balanço, costumava dizer.

A ideia era mesmo desaparecer. Alugou seu apartamento no Grajaú e mudou-se para Macuco, município de Cordeiro, na região serrana. Um pequeno sítio no meio do nada, cercado de jequitibás-rosa e muito mato. Um refúgio sonhado, longe da maçante humanidade.

Yolanda sabia que o passar dos anos cobrava seu preço. As pessoas comentavam que envelhecer com alguém era mais divertido. Você podia compartilhar dores, aflições, limites e remédios. Na solidão da roça, não teria com quem conversar ou se aborrecer. Mas isso não a preocupava.

Ainda não tinha vivenciado, na plenitude, a reclusão irrestrita. Uma coisa era não se ter vida social, fugir das aglomerações, da vizinhança impertinente, dos grupos de whatsapp, outra era o mergulho no abandono e no isolamento completo.

A favor de sua ida para o sítio, havia a afinidade com a natureza. Yolanda adorava plantas. Em sua antiga casa, no Grajaú, colecionou vasos com orquídeas, samambaias e suculentas. Um problema a ser enfrentado seriam os mosquitos. Em especial, pernilongos. Na verdade, qualquer tipo de inseto. Nem precisava ser barata voadora, uma mariposa já causava pânico.

Para se viver na solidão seria preciso aceitar a própria companhia. Yolanda achava que gostava à beça de si mesma. Não havia necessidade de estar convivendo com alguém. Sem contar o lado econômico: as principais despesas resumiam-se a alimentação e livros. Ela adorava ler e era boa cozinheira.

Outra delícia era não haver televisão, sinal para a Internet e o celular ficar desligado. Bênçãos. Teria, enfim, seus ansiados momentos de autoconhecimento, foco e bem-vindo descanso.

Com duas semanas no sítio, Yolanda pirou. Ouvia vozes, deu para gritar do nada e ter dificuldade para dormir com o silêncio opressivo. Também não havia supermercado perto e faltavam itens básicos, como sorvete de creme com nozes, iogurte grego e castanhas do Pará. Os malditos cachorros do sítio ao lado, volta e meia, invadiam seu quintal. Yolanda sempre teve medo de cachorro.

Os dias se arrastavam. Quando chovia ficava tudo enlameado e se necessitasse de atendimento médico, o hospital ficava a quilômetros. Ela pensava seriamente em retornar à agitação urbana, ao progresso massacrante e à chatice das relações interpessoais. O sítio era bucólico, a natureza convidativa, a solidão plena, mas havia também um enorme vazio que ela não conseguia entender. Era como se tivesse o homem mais bonito do mundo, mas não houvesse ninguém para contar.

Atualmente, Yolanda reside no Grajaú e divide o apartamento com uma ex-colega dos tempos do Banco do Brasil. De vez em quando, gosta de ficar isolada.

Márcio Paschoal

Marcio Paschoal nasceu no Rio de Janeiro, onde também se formou em Economia. Escritor e redator de longa estrada, construiu uma obra diversa, com mais de dez livros publicados entre romances, crônicas, ensaios e literatura infantil. Trabalhou na Fundação Getúlio Vargas, no Cederj (Centro de Ensino Universitário a Distância), e colaborou com o Jornal do Brasil, escrevendo sobre música e literatura. Entre seus romances estão Sofá branco — menção honrosa no Prêmio Graciliano Ramos e pré-selecionado para o Prêmio Nestlé de Literatura —, além de Odara e Os atalhos de Samanta. No campo do humor, publicou Cada louco com sua mania, ilustrado por Jaguar, e o Horóscopo sexual para praticantes. Também é autor de A morte tem final feliz e do livro de crônicas A maconha está bêbada. Na literatura infantil, escreveu O livro maluco e a caneta sem tinta. É ainda autor das biografias do compositor maranhense João do Vale, da atriz e travesti Rogéria e do romance biográfico João Antônio e os Bee Gees.

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